O caçador de afeto

Faltavam poucas horas para meu voo decolar do Arturo Benítez, único aeroporto de Santiago, e eu ainda vasculhava a feira artesanal de Santa Lucía em busca de alguma alpaca em imperdível promoção. Mesmo em novembro e sob um sol de quase 30 graus, os chilenos não cediam, mantendo em 10 mil pesos essas blusas de lã. Desanimado, resolvi descansar num banco e bebericar a água sulfurosa que eles vendem por lá. Era hora de ir, e ainda sentado dei uma última espiada nos estandes em volta para garantir que comprara tudo que queria. Foi então que avistei uma pequena caixa, no chão, abarrotada de livros. Levantei-me como um relâmpago.

Se tem algo que me encanta são livros. Melhor: livros velhos. Melhor ainda: livros velhos e com dedicatória. Sebos ou feiras de livros usados são paradas obrigatórias em qualquer viagem que faço, e no Chile não foi diferente. Dias antes, eu passara boas horas enfiado numa “librería”, lutando bravamente com a minha rinite. Na ocasião, não encontrei o que buscava. Minha última esperança, portanto, estava nesse baú de madeira. Era a derradeira chance de achar um exemplar de Pablo Neruda.

Continuar lendo

Primavera concretada

Já são quase 7 anos de Brigadeiro Faria Lima. Ao menos 1.345 dias do mesmo trajeto entre o metrô e o edifício onde vendo 160 horas do meu mês por uma cifra que nunca dura até o fim dele. E só hoje é que me dei conta de um discreto espetáculo encravado já no término desse fastidioso percurso de 350 metros.

Desconheço a espécie da árvore e de suas flores. Tampouco compreendo de onde a flora paulistana extrai forças para vigorar em meio a tanto dióxido de carbono, urina humana e bitucas depositadas às suas raízes. Mas sei o seguinte: sua valentia em florescer, tão espremida entre concreto e aço, me fez estancar no meio da caminhada e fazer o registro abaixo:

Continuar lendo

Depois da Augusta

Despertei com meu habitual e cronometrado encerramento das vias nasais. “Tenho de me livrar logo disso”, pensei, enquanto tateava o colchão em busca do frasco que me concederia mais algumas horas de sono. Uns dormem com o celular sob o travesseiro. Eu, com cloridrato de nafazolina.

Cambaleei até o banheiro. Pela claridade que invadia o quarto, soube que o dia já amanhecera. Torci para que o relógio ainda marcasse 6 e alguma coisa, mas sem de fato conferir meu prognóstico. É sempre melhor me deitar novamente sem saber que já são 7h58 – e que dali 2 minutos vou estremecer com aquele toque polifônico que passei a detestar mais que bife de fígado.

Continuar lendo

Amém

– Ei, grande! Tu aí! Psiu!

Eu caminhava apressado (como sempre) pelo Largo da Batata, era uma terça-feira fria, feia e atrasada, mas parei e me virei.

– Me diga aí uma passagem da Bíblia!

Sentado sobre um colchonete, pertences por todo lado, ele abriu um sorriso amarelo-avermelhado. Um filete de sangue escorria pelos seus dentes inferiores, e eu tive um calafrio.

Continuar lendo

A tecelã de sorrisos

Ela se aproximou sem muita cautela. Trombou em uma cadeira no caminho, pediu desculpas ao casal, puxou o banco à minha direita – que arranhou o piso com um som aflitivo – e teve dificuldade para se sentar. A banqueta alta a obrigou a arrastar uma parte da bunda primeiro para depois puxar a outra banda, como quem sobe a uma mureta. O cheiro de Marlboro vermelho recém consumido me incomodou, e eu comecei a pensar no quão hipócrita um fumante pode ser.

Continuar lendo

Alexandre ou (A Doçura do Desatino)

– Olá, meu nome é Alexandre, como é o seu?

Eram nove horas da noite, a rua estava deserta e eu espiava a geladeira de uma banca solitária, último resquício de comércio aberto na Gentil de Moura. Não tive tempo de responder, apenas de apertar a mão amistosamente estendida, que já aguardava alguns segundos na mesma posição.

– Não quero te incomodar, mas é que eu sou portador de esquizofrenia e esqueci meu passe especial. Você não teria algum dinheiro para me emprestar, teria? A propósito, meu nome é Alexandre.

O rapaz da banca, ocupado com os últimos afazeres antes de fechá-la, passou a prestar mais atenção no homem. Não sei se pela menção à doença, pelo português irretocável ou pelos 2 metros que ele devia ter. Talvez tudo isso. Mas apenas eu podia fitar aqueles olhos azulíssimos, que não piscavam.

Continuar lendo

O trânsito parou

Por Leila Leal Lima

O trânsito parou. Eu também parei. O pensamento continuou em qualquer detalhe da última reunião antes de deixar o escritório. Quatro crianças se aproximavam dos carros em fila. Deviam ter entre três e oito anos. Irmãos, talvez. Mas e os pais? Onde estão? Não vejo pais. Só as crianças: quatro. Sabe, não gosto de dar dinheiro no farol. Dinheiro, não. Dou qualquer outra coisa que estiver no carro, mas dinheiro não gosto, não. Acontece que criança mexe com a gente, né? Um dos menores encosta no meu carro. Chuto que ele tem quatro anos. Devo ter alguma coisa na bolsa, deixa eu pegar a bolsa… só mais um pouco que ela está embaixo do banco… Como me irrita ter que esconder a bolsa embaixo do banco. Mas estou em São Paulo: tenho que esconder a bolsa, fechar o vidro do carro e sair mais cedo do trabalho às sextas por causa do rodízio. “Tia, você tem água?”. Eu não tinha alcançado a bolsa ainda. Ele queria água. Eu tinha água. Caramba, eu nunca fiquei tão contente em ter uma garrafa d’água dentro do meu carro! Pelos olhos dele, ele também não. “Obrigado, tia”. Pausa. “Seu carro está machucado, você viu?” – e apontou para a batida na minha lateral esquerda. O trânsito andou. Eu também andei.

Não, meu carro não está machucado, pequeno desconhecido. Eu que estou.

Para ver mais textos de outras pessoas que colaboraram com este blog, use a tag “contribuição”.

Motivo(s)

Toda manhã, preciso encontrar um motivo para tirar o corpo pesado da cama. Não há que ser uma razão lá tão nobre, tampouco inspiradora, mas ela precisa estar ali.

Há dias em que penso apenas no Maker’s Mark que vou tomar ao chegar em casa. Noutros, lembro que tenho uma quest das mais cabeludas para terminar no Skyrim. Pequenezas, das mais miúdas mesmo, mas que me dão algum prazer depois de um expediente maçante.

Continuar lendo

O de sempre

Há algo de mágico em pedir “o de sempre”. Em chegar ao restaurante e ser reconhecido de pronto e cumprimentado. Em, sem mesmo esperar o cardápio, trocar um olhar de cumplicidade com o garçom e dizer: “O de sempre”.

Não é de hoje que sou adepto da monogamia gastronômica, mas só tomei real ciência dessa minha “fidelidade” quando comecei a almoçar fora, seja nos tempos de colégio ou em virtude do primeiro emprego (e dos próximos que se seguiram). Passava meses indo ao mesmo restaurante. Só trocava se enjoava da comida.

Continuar lendo