Que alegria senti

Depois do sombrio “Que medo senti”, pensei: por que não revelar um lado um pouco menos soturno daquele mesmo Thyago de 10 anos?  Falando como quem já se achava adulto o bastante para escrever sobre o passado, resolvi relatar um caso curioso que me acometera 5 anos antes. Ou seja, quando eu somava apenas 5 primaveras de vida. (Nota mental: sorte a minha – e de vocês – eu ter deixado toda essa prepotência lá na infância. Do jeito que a coisa ia, não duvido que eu me proporia a lançar uma autobiografia aos 15).

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O começo

Fuçando em caixas antigas, topei com uma folha cujos escritos à lápis logo me chamaram a atenção. A letra de mão, quase ilegível, não deixa dúvidas: é algo de muito, mas muito tempo atrás. E digo isso não porque minha caligrafia tenha melhorado – ela continua ilegível – mas porque eu escrevo em letra de forma desde, sei lá, meus 10 anos.

Não há data, mas posso chutar: acredito que essa pérola foi redigida por volta de 1998, quando eu tinha 8 anos. É, eu comecei cedo. Lembro-me de que escrever era um de meus passatempos prediletos, o que causava estranheza não só em meus amigos, mas também em meus pais. Tenho guardadas, em algum lugar que eu ainda sonho em encontrar, histórias de 20, 30 folhas (ou seja, 40, 60 páginas). E pensar que hoje ando doido para escrever uma narrativa sequencial e não consigo. Minha criatividade parece ter ficado na infância.

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Menino Luz

Talvez não eu pise mais esta terra quando tu puderes entender, e não apenas ler, o que escrevo. És sangue do meu irmão, meu mais benquisto companheiro de luta, e, portanto, és sangue meu também. Se fores metade do que é hoje teu pai, serás grande, Menino Luz. Mas sei que serás ainda maior. Vi em teus olhos. Senti na tua pequenina mão, que agarra tão forte. Dos Bálcãs, é de onde vens. Obstinado, firme, antevejo tua ascensão.

Tua graça não poderia ter sido melhor escolhida. Deus de ti mesmo, mas, para antigos homens, deus do Sol e, escuta esta com máxima atenção: da luz da verdade. Diziam que Apolo era o purificador de pecados (dos quais estamos sempre tão cheios) e símbolo da inspiração artística. Era a arte na forma mais excelsa. É… tua graça não poderia ter sido melhor escolhida.

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Pequenos anjos (caídos)

Ela parou bem ao meu lado. Nem a vi chegar. Era tão miúda que batia no meu ombro mesmo eu estando sentado.

– Me dá um pouco da sua comida?

Virei-me e encarei aqueles olhos enormes que me fitavam com expectativa. Estava com um vestidinho puído e seus cabelos loiros eram quase castanhos de tanto sol. Parecia uma ciganinha.

– Do meu prato? Faz assim: por que você não vai até aquela moça – apontei para a garçonete atrás do balcão – e pede o que você quiser?

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Crianças

Ao meu lado, no cinema, sentaram-se mãe e filha. Enquanto eu checava o celular, percebi que a pequena me olhava. Depois de algum tempo, perguntou, bastante curiosa:
– Cadê seu filho?
– Clara! – censurou a mãe – Me desculpa, viu?
– Que isso, não tem problema – sorri – Eu ainda não tenho um, Clara.
– Hum… – pensou um instante e continuou – Mas esse filme é pra criança, não é? E você é grande!
– Agora já chega, né? – apressou-se novamente a mãe, muito nova e muito preocupada.
– Tá tudo bem! Eu só sou grande por fora. Aqui dentro – apontei para a cabecinha loira dela – sou do seu tamanho.
Clara achou engraçado. A mãe também sorriu, e me olhou com aquela cara de “crianças, você sabe como é, né?”.
– Crianças…
– Elas são demais – completei.



– Ana.
– Thyago.

É, crianças são demais.

Sobre a infância

Dias de alento, de terna alegria, de sorriso gratuito e leve. Lembro-me daquela casa onde todos morávamos, éramos grandes! O pequeno jardim, minha floresta. O pequeno gato, meu tigre. Cada cômodo, meu castelo. Era tempo de felicidade. Hoje, de saudade.

Os carros, os prédios, as árvores imponentes. Mundo de gigantes, de sons que eu não entendia, de livros que não lia. A televisão, as guerras, o jornal sobre a mesa iluminada pelo Sol da manhã. Nada era real, eu era livre. Inocência resplandescente, ainda incólume.

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