A lista

Recebi de um grande amigo a proposta de listar tudo o que mais me incomoda em mim mesmo, tudo o que mais repudio na minha personalidade (meus defeitos, por assim dizer). Segundo ele, e eu acredito que esteja certo, é uma forma de enfrentar melhor meus demônios e encarar um por um. Pode parecer besteira, corrente de Facebook, mas trata-se de uma “técnica” realmente aplicada na psicologia.

A princípio, fiz a lista e guardei para mim. Depois, resolvi colocar aqui. Não há uma motivação exata para tê-lo feito, só achei que seria interessante compartilhar essa experiência e ver o que as pessoas pensam a respeito (se concordam, se discordam, se adicionariam mais mil tópicos, se se sentem impelidas a fazer o mesmo).

Bom, coloquei só cinco itens. Afinal, não queria que este texto ficasse gigante. Prepare seu estômago!

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Um estranho no espelho

“Estou aqui, saboreio-me, sinto um gosto velho de sangue e água ferruginosa, meu gosto, eu sou meu próprio gosto, eu existo. Existir é isto: beber-se a si próprio sem sede”.

Jean-Paul Sartre, em “A Idade da Razão”.

Ainda criança, gostava de me colocar frente ao espelho e encarar-me fixamente por alguns minutos. Punha-me a perguntar, muitas vezes em voz alta: “Quem é que está aí? Quem é que está preso aí dentro? Quem é você?”. Não demorava muito para eu começar a sentir algo como uma “projeção astral”, um “olhar de fora”. Eu ainda estava ali, mas era como se conversasse com outra pessoa.

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Elas e eu

Acordei pensando nelas. Em cada uma das mulheres que passou pela minha vida. Pensei especialmente em você, claro, como não poderia deixar de ser. Bem sabe que minha mente doentia ainda se prende a uma coisa que não existe. Aliás: existiu algum dia?

Assim, de repente, o dia de hoje começou com cada sorriso, cada par de olhos, cada mão enlaçada na minha me vindo à cabeça. Tudo de uma vez, uma lembrança atropelando outra, perfumes se misturando, vozes disputando espaço.

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Eu, eu mesmo e Thyago

Eu falo sozinho. Sempre que confesso isso a alguém, a pessoa replica: “Ah, eu também!”. “Mas calma, você não entendeu”, eu continuo. “Eu realmente converso comigo mesmo, discuto, debato!”. Só aí meu interlocutor corta o sorriso, arregala um tanto os olhos e faz aquela cara de “Ok, me explique isso direito”.

Não sei exatamente quando a mania (se é que posso chamar assim) começou, mas certamente foi na infância. Também não sei apontar motivos concretos para a sua aparição, mas talvez tenha algo a ver com o fato de eu ter sido uma criança muito sozinha. Então eu devo ter matutado: “Para que criar um amigo imaginário se eu tenho um de carne e osso?”. Pronto, começava a esquizofrenia.

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Eu

Não consigo mais suportar. Não suporto mais os índicios, as verdades. Ela está indo. Ela vai. A esperança que me mantinha vivo me diz, em tom zombeteiro: “Acorde, tolo!”. A esperança que me mantinha calmo sorri e acena: “Já me vou. Levante-se!”.

Se eu previ? Não. Ingenuidade ou burrice, escolham, mas não. Sabia que poderia acontecer, mas não dei ouvidos à realidade. Aliás, ela já me fugiu há muito. Não sei, de fato, por que me torturo. Por que busco saber antes do tempo. É o mal da nossa era. O silêncio não existe.

Então que eu me erga. A lama que me cobre até os cabelos pode endurecer e virar cimento. Não ei de permitir isso. Não ei de causar, mais uma vez, minha própria ruína. Só eu sei o que há aqui dentro. Só eu sei que tenho me castigado com vigor e vontade. Liberte-me, Thyago!