O choro e o mar

Por Diego Guime

E se eu tivesse ido um pouco além? Talvez ninguém tivesse me impedido. Talvez ninguém tivesse nem visto. Iluminado pelo contorno das luzes do calçadão ao fundo e pelas luzes distantes dos navios, meus pés tocavam a água e as ondas pareciam me puxar até que minhas pernas estavam quase que totalmente consumidas. No escuro, éramos só eu, as estrelas e o mar, junto com aquela sensação de infinito diante do universo que se abre diante de olhos úmidos, romanticamente os fazendo lacrimejar. Ali não existia mais eu. Era tudo e um todo, que se conectavam assustadoramente. Senti um vazio e uma sensação de não fazer parte daquele ambiente, como se a existência fosse um peso muito grande a se carregar. Então olhei o horizonte uma última vez e desisti. Olhei pra trás e ainda tinha espaço. Ainda havia tempo.

Volto à superfície com minhas roupas e documentos encharcados. Volto pra areia, e com ela a realidade. Volto com a certeza de que deveria ter ido um pouco mais além.

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Um estranho no espelho

“Estou aqui, saboreio-me, sinto um gosto velho de sangue e água ferruginosa, meu gosto, eu sou meu próprio gosto, eu existo. Existir é isto: beber-se a si próprio sem sede”.

Jean-Paul Sartre, em “A Idade da Razão”.

Ainda criança, gostava de me colocar frente ao espelho e encarar-me fixamente por alguns minutos. Punha-me a perguntar, muitas vezes em voz alta: “Quem é que está aí? Quem é que está preso aí dentro? Quem é você?”. Não demorava muito para eu começar a sentir algo como uma “projeção astral”, um “olhar de fora”. Eu ainda estava ali, mas era como se conversasse com outra pessoa.

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Da força do olhar

Durante toda minha vida, sempre fui o primeiro a desviar o olhar. Fosse ele dirigido a homens ou mulheres. Sempre fui o primeiro a baixar a cabeça, a desistir de fitar aquela garota encantadora ou aquele cara insuportável.

É como naquela brincadeira de ficar sério. Eu era sempre o perdedor. A causa? A causa e a consequência são as mesmas: a timidez. O já tímido Thyago foi ficando cada vez mais arisco com o passar dos anos.

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Todo querer

De repente fui tomado de vontade. Tanta vontade e determinação que poderia começar, neste momento, aquela pós que estou postergando, poderia me inscrever na academia agora, às duas da manhã. Ou, melhor ainda, poderia pegar meu carro e cair na estrada, como há tanto tempo venho planejando e jamais agarro meus colhões e me ponho a fazê-lo.

É uma sensação das mais estranhas e surpreendentes que podem lhe acometer. Sabe, são duas da matina e eu tenho de levantar logo, para estar na porra do plantão. Mas foda-se. O dia que começa hoje também acaba hoje. O amanhã não existe. O presente é a única coisa tangível, palpável. Pois enchi meu copo. Whisky. Doze anos. Sem gelo. Nos fones, o melhor do blues da década de 60.

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Motim

– Quantos são?
– Algumas centenas.
– Armados?
– Sim. A maior parte com mágoa. Outros com frustração. Alguns poucos, os
mais perigosos, com ódio.
– Ruim. Muito ruim…
– Um fósforo e um barril de pólvora seriam menos inflamáveis.
– Precisamos acalmá-los. Que você tem à mão desta vez?
– Já esgotei meus paliativos.
– Todos?
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Ciclo de existência

Dentro do carro. O farol fecha. A Av. Paulista inteira está à frente. Os pedestres começam a atravessar a rua desordenadamente e uma moça deixa uma pasta que carregava em seu braço cair no chão. Um rapaz para, se abaixa, pega e entrega a pasta. A faixa de pedestres abaixo deles começa a rastejar, como uma lesma, devagar, deixando rastros de pó branco no asfalto conforme se movimenta. Logo todas as faixas resolvem fazer o mesmo, se movimentam aos poucos, indo atrás da precursora da corajosa movimentação. Os pedestres continuam andando de um lado para o outro. Um motoqueiro ao meu lado. Coloca a perna no chão para se equilibrar na moto parada. Sua perna cria raízes e se gruda ao asfalto como uma daquelas raízes de árvores que saem da lama para respirar no manguezal. Logo ele inteiro se transforma em madeira. Continuar lendo

Entorpecimento constante

Na varanda de seu apartamento recém adquirido ele chora. Sentado no banco ainda com o plástico protetor, pensa, desesperadamente pensa. Sua mulher já adormeceu na sala. Seu filho, ainda acordado, assistindo desenhos na televisão, não imagina a dor que sente; e ele espera que nunca sinta, que ele trilhe caminhos diferentes.

A vida naquele casa pulsa a sua volta, a sua construção, o seu ideal de vida, tudo parecia perfeito, normal. Tudo parecia correto. Mas por algum motivo não está, alguma coisa lhe falta.

Ele toma sua quarta dose de whisky… Já se sente um pouco embriagado, não é mais o mesmo. Sua consciência é abalada facilmente nos últimos tempos. Se sente suscetível às forças externas. Quase sempre mais fortes que ele.

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