Ação Penal 470

Um tom alto demais na reclamação – Se uma situação crítica (como os vícios de uma administração, ou corrupção e favoritismo em entidades políticas e culturais) é descrita de forma bastante exagerada, a descrição certamente perde efeito junto aos perspicazes, mas age com tanto mais força sobre os não-perspicazes (que teriam permanecido indiferentes, no caso de uma exposição cuidadosa e moderada). Mas, existindo estes em número consideravalmente maior, e abrigando em si forças de vontade mais intensas e mais impetuoso desejo de ação, o exagero favorece investigações, castigos, promessas e reorganizações. – Nesse sentido, é útil exagerar na descrição das crises”.

Friedrich Nietzsche, em “Humano, Demasiado Humano”, 448.

Os fins justificam os meios? Até que ponto o apedrejamento público e a condenação calcada na vingança (e completamente alheia à reparação real dos danos) legitima a aurora de uma nova consciência política? E mais: que consciência será essa, se fundamentada nos preceitos errados, ensinando, como se a vida já não o fizesse, a Lei de Talião como caminho a ser seguido?

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Vontade de Potência

O propósito deste texto é reunir as informações retiradas das leituras de algumas obras de Friedrich Nietzsche acerca do conceito de Vontade de Potência e, mediante interpretação, compartilhá-las da maneira que enxergo. A teoria da vontade de potência permeia toda a obra de Nietzsche, principalmente nas passagens que buscam desvendar a moral dos homens, sendo conceito fundamental para entender o que o filósofo acreditava da moral moldada no decorrer dos tempos e das relações entre os homens em meio a ela.

Inicialmente, consideremos a distinção que Nietzsche faz de dois tipos de homens, diante de sua postura em relação à vida, serão denominados aqui de dominadores e homens do rebanho (no decorrer de sua obra Nietzsche empresta vários nomes para esses dois tipos de homem, senhores, homens ativos, homens reativos, homens do ressentimento entre outros).

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A recusa de Sartre

Não é todo dia que se ganha um Prêmio Nobel. Pois Jean-Paul Sartre não só ganhou como recusou. Pai do existencialismo e um dos mais importantes filósofos do século XX, o escritor foi agraciado com o Nobel de Literatura em outubro de 1964, mas não aceitou a “honraria”.

Sedentos que somos (todos nós, seres humanos) por qualquer tipo de reconhecimento, não é de se estranhar que a recusa dele seja alvo de curiosidade até hoje. Imagine qual não foi, então, a comoção há 49 anos?

Ciente disso, Sartre redigiu, na época, uma carta pública explicando seus motivos para não ter aceitado o prêmio. Transcrição abaixo.

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Avante, senhores!

Avante – Assim, avante no caminho da sabedoria, com um bom passo, com firme confiança! Seja você como for, seja sua própria fonte de experiência! Livre-se do desgosto com seu ser, perdoe seu próprio Eu, pois de toda forma você tem em si uma escada com cem degraus, pelos quais pode ascender ao conhecimento. A época na qual, com tristeza, você se sente lançado, considera-o feliz por essa fortuna; ela lhe diz que atualmente você partilha experiências de que homens de uma época futura talvez tenham de se privar. Não menospreze ter sido religioso; investigue plenamente como teve um genuíno acesso à arte. Não é possível, exatamente com ajuda de tais experiências, explorar com maior compreensão enormes trechos do passado humano? Não foi precisamente neste chão que às vezes tanto lhe desagrada, no chão do pensamento impuro, que medraram muitos dos esplêndidos frutos da cultura antiga? É preciso ter amado a religião e a arte como a mãe e a nutriz – de outro modo não é possível se tornar sábio. Mas é preciso poder olhar além delas, crescer além delas; permanecendo sob o seu encanto não as compreendemos. Igualmente você deve familiarizar-se com a história e o cauteloso jogo dos pratos da balança: ‘de um lado – de outro lado’. Faça o caminho de volta, pisando nos rastros que a humanidade fez em sua longa e penosa marcha pelo deserto do passado: assim aprenderá, da maneira mais segura, aonde a humanidade futura não pode ou não deve retornar. E, ao desejar ver antecipadamente, com todas as forças, como será atado o nó do futuro, sua própria vida adquirirá o valor de instrumento e meio para o crescimento. Está em suas mãos fazer com que tudo o que viveu – tentativas, falsos começos, equívocos, ilusões, paixões, seu amor e sua esperança – reduza-se inteiramente a seu objetivo. Este objetivo é tornar-se você mesmo uma cadeia necessária de anéis da cultura, e desta necessidade inferir a necessidade na marcha da cultura em geral. Quando o seu olhar tiver se tornado forte o bastante para ver o fundo, na escura fonte de seu ser e de seus conhecimentos, talvez também se tornem visíveis para você, no espelho dele, as distantes constelações das culturas vindouras. Você acha que uma vida como essa, com tal objetivo, seria árdua demais, despida de coisas agradáveis? Então não aprendeu ainda que não há mel mais doce que o do conhecimento, e que as nuvens de aflição que pairam acima lhe servirão de úberes, dos quais você há de extrair o leite para seu bálsamo. Apenas ao chegar à velhice você nota como deu ouvidos à voz da natureza, dessa natureza que governa o mundo inteiro mediante o prazer: a mesma vida que tem seu auge na velhice tem seu auge na sabedoria, no suave fulgor solar de uma constante alegria de espírito; ambas, a velhice e a sabedoria, você as encontra na mesma encosta da vida, assim quis a natureza. Então é chegado o momento, e  não há porque se enraivecer de que a névoa da morte se aproxime. Em direção à luz – o seu último movimento; um grito jubiloso de conhecimento – o seu último som (grifo nosso)“.

Friedrich Nietzsche, em “Humano, Demasiado Humano”, 292.

A Previsão de Heidegger

Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Em 1953, o filósofo alemão Heidegger (1889-1976), já previa certas particularidades da sociedade dita moderna. Será que o futuro e o caminho da sociedade era tão óbvio e previsível assim? E hoje, o que podemos esperar do futuro, será que tudo é mesmo tão óbvio e previsível assim? No texto abaixo Antônio Abujamra faz a leitura e ADAPTAÇÃO (estou procurando uma tradução boa da versão original, para colocar aqui como comparação) de uma passagem do livro “Introdução à Metafísica” de Martin Heidegger no programa Provocações (de número 510) da TV Cultura:

“Quando a tecnologia e o dinheiro tiverem conquistado o mundo; quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com rapidez; quando se puder assistir em tempo real a um atentado no ocidente e a um concerto sinfônico no oriente; quando tempo significar apenas rapidez online; quando o tempo, como história, houver desaparecido da existência de todos os povos, quando um esportista ou artista de mercado valer como grande homem de um povo; quando as cifras em milhões significarem triunfo, – então, justamente então — reviverão como fantasma as perguntas: para quê? Para onde? E agora? A decadência dos povos já terá ido tão longe, que quase não terão mais força de espírito para ver e avaliar a decadência simplesmente como… Decadência. Essa constatação nada tem a ver com pessimismo cultural, nem tampouco, com otimismo… O obscurecimento do mundo, a destruição da terra, a massificação do homem, a suspeita odiosa contra tudo que é criador e livre, já atingiu tais dimensões, que categorias tão pueris, como pessimismo e otimismo, já haverão de ter se tornado ridículas”.

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Quatro regras cartesianas

As quatro regras do método criadas por Descartes no ano de 1637 para alcançar o conhecimento verdadeiro:

  1. Questione! Não aceitar nada como verdadeiro sem que antes passe pelo crivo da razão;
  2. Desconstura! Tudo o que aparece como complexo deve ser dividido em tantas partes simples possíveis;
  3. Recomponha! Feita a simplificação, ela deve seguir um ordenamento, para que a remontagem possa ser feita sem desvios que prejudiquem a verdade almejada.
  4. Discuta e ouça! Após as conclusões, receba as críticas e a partir delas faça a manutenção de suas descobertas, e com a ajuda de todas as ideias possíveis alcance a tão almejada verdade (ou algo próximo a ela).

As regras como aparecem aqui foram extraídas do livro “Discurso do Método” a partir de uma brevíssima leitura e interpretação deste que vos escreve.

Espírito Livre

Depois de suas andanças, de sofrer calado, depois de suas angústias, da solidão – escolhida e não imposta – das doenças, da fome. Depois de descer ao ponto mais obscuro do homem, de sentir o medo e o horror da morte.

Depois de trilhar todo o seu caminho por si só. Depois de todas as suas descobertas.

Depois das provas impostas a si mesmo e superadas, o espírito livre emerge naquele ser humano. O seu suspiro é encantador, acalenta a alma – mas não é alegre, não o faz feliz.

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Conselhos de Nietzsche ao Dr. Josef Breuer

Trechos do romance “Quando Nietzsche Chorou” de Irvin D. Yalom, nos quais Nietzsche aconselha o Dr. Josef Breuer, um dos precursores da psicanálise, sobre como superar sua infelicidade e desespero:

“Com o tempo, eu lhe ensinarei como superar [o desespero]. Você quer voar, mas não se pode começar voando. Primeiro, tenho que lhe ensinar a andar, e o primeiro passo ao aprender a andar é entender que quem não obedece a si mesmo é regido por outros. É mais fácil, muito mais fácil, obedecer a outro do que dirigir a si mesmo.”

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O que é esclarecimento?

“Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento”.

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Trabalho, logo ignoro

Não sou um profundo conhecedor da Filosofia moderna, mas gosto particularmente da corrente racionalista. Sabe aquela famosa máxima que você anotou no caderno uma vez e depois usou como status no MSN? “Penso, logo existo” é, em minha opinião, a melhor síntese que três palavras podem construir. Resume uma era e um caminho. Um caminho que seguimos em parte.

Se levássemos ao pé da letra a sentença de René Descartes (não, não é de Sócrates), não restaria muito da humanidade. Curioso é que o pensador francês viveu em um período feudalista, no qual a Igreja era a lei. Ou seja, nada muito diferente do que vivemos hoje no nosso Brasil “laico”. De qualquer forma, credito a culpa do nosso “não pensar” em outro fator mais do que no fanatismo religioso.

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