Não sou Ivan

Não havia melhor lugar para terminar a leitura de “A Morte de Ivan Ilitch” que o metrô abarrotado das 8 horas da manhã. Ergui lentamente a cabeça (a única parte do corpo que me era possível mover) e fitei com torpor os rostos em transe, mergulhados em seus universos portáteis particulares. Pensei: vamos todos morrer como Ivan.

Leon Tolstói nos conta a história de Ilitch desde seus ternos dias, passando pela viçosa juventude e chegando à sólida maturidade. Rapaz brilhante, ascende com ambição e malícia em sua carreira jurídica. Chega ao topo como juiz, e de lá fita a si mesmo com orgulho – e os demais com altivez.

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Yo ya te absolví

Reservei um dia da minha viagem a Havana para visitar – e deixar boa parte dos meus pesos – na famosa feira de livros da Plaza de Armas. Diariamente, dezenas de cubanos montam pela manhãzinha seus estandes e passam a tarde a pitar e iluminar turistas sobre as raridades literárias ali expostas. E quando falo em “raridades”, não exagero.

A primeira edição de “Las Venas Abiertas de America Latina”. A primeira edição de “El Diario del Che en Bolivia”. Livros assinados pelos próprios Raúl e Fidel Castro. A primeira edição de “La Historia me Absolverá” (que só não foi minha por falta de recursos). Enfim, aquilo é um museu aberto. E, em geral, bastante acessível.

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Por dentro da penúria

Até pouco tempo, meu contato com George Orwell se resumia aos seus dois maiores clássicos, “1984” e “Revolução dos Bichos” (os quais, como é de se supor, figuram entre meus livros favoritos). Foi então que ganhei “Na Pior em Paris e Londres“, e me lancei ao trabalho de expandir meu repertório orwelliano.

Não dá para dizer que “Na Pior” é tão impactante (ou importante) quanto os best-sellers supracitados, mas garanto: é surpreendente. Aliás, talvez seja até injusto fazer comparações, visto que essa obra trata do mundo real, enquanto as outras duas são ficções, uma distópica e a outra satírica, respectivamente.

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A beleza do horror

Comprei Edgar Allan Poe por acidente. Quando cheguei à livraria e comecei a rodar aquela estante de pocket books, procurando por algum clássico que eu já deveria ter lido, avistei “O Príncipe e o Mendigo”, de Mark Twain. Peguei na mesma hora e fui para o caixa. Por azar (ou sorte), o livro estava com falhas de impressão (metade do livro de cabeça para baixo) e eles não tinham outro no estoque. Foi aí que entrou Poe. Como segunda opção, acredite.

Já tinha ouvido sobre esse americano, mestre do terror e precursor da ficção policial. São gêneros que muito me atraem, por sinal. Juntei, portanto, a curiosidade (nunca tinha lido nada do autor) e a minha predileção pelos temas com os quais ele trabalhava e comecei a leitura de “Antologia de Contos Extraordinários”. O livro reúne 13 contos (por que será?) dos mais cabeludos e assustadores já escritos por Poe.

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A recusa de Sartre

Não é todo dia que se ganha um Prêmio Nobel. Pois Jean-Paul Sartre não só ganhou como recusou. Pai do existencialismo e um dos mais importantes filósofos do século XX, o escritor foi agraciado com o Nobel de Literatura em outubro de 1964, mas não aceitou a “honraria”.

Sedentos que somos (todos nós, seres humanos) por qualquer tipo de reconhecimento, não é de se estranhar que a recusa dele seja alvo de curiosidade até hoje. Imagine qual não foi, então, a comoção há 49 anos?

Ciente disso, Sartre redigiu, na época, uma carta pública explicando seus motivos para não ter aceitado o prêmio. Transcrição abaixo.

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O velho e o mar

Provavelmente a obra mais aclamada do Sr. Ernest Hemingway, a primeira que li, e que logo me espantou tamanha sua simplicidade e elegância. Uma verdadeira obra de arte que rendeu ao autor o prêmio Nobel da literatura no ano de 1954.

Escrita em Cuba em 1951, Hemingway conta a história do velho pescador Santiago, que vive uma péssima fase em seu ofício, não consegue pescar nenhum peixe há quase três meses.

Na manhã do 85º dia de sua maré de azar, Santiago entra sozinho em sua pequena canoa e segue em direção ao oceano mais um vez. Um enorme peixe morde seu anzol e o velho trava uma intensa batalha contra a natureza e contra seus próprios limites.

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