Que medo senti

Quando criança, não nos entra na cabeça por que os adultos têm a estranha mania de guardar bem guardado tudo o que produzimos. Qualquer rabisco, qualquer escrito, qualquer homem de palito que nasce da absoluta falta do que fazer (ou de habilidade mesmo). No meu caso, nunca fui um entusiasta das artes plásticas. Logo cedo compreendi que não iria longe com cadernos de desenho. Foi quando tentei a sorte com folhas pautadas – que também não me trouxeram qualquer retorno até agora, mas ao menos não me sinto tão constrangido em espalhar por aí o produto desse hobby.

Bom, eis que um e-mail inesperado do meu irmão me fez compreender, afinal, a importância de se preservar tudo o que for possível quando se trata de produção infantil. Ele me enviou nada menos do que cinco textos, e eu desconhecia a existência de todos eles. Pelo que investiguei, todos datam da mesma época: 16 anos atrás, quando eu completava uma década de vida. Li cada arquivo como se fosse a primeira vez, como se não fossem minhas aquelas palavras. E um cisco caiu no meu olho. Que saudade!

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A sentença

O coração inchado esmaga-lhe o peito, e bombeia, desesperado, golfadas de sangue que inflam suas artérias, levando o oxigênio que ele queima quase que instantaneamente a cada passada. O aperto na garganta dificulta ainda mais a respiração já entrecortada e ofegante.

Sente as pernas arderem, queimarem. É como se massageassem seus músculos com um ferro de passar. As pupilas estão dilatadas, a boca escancarada busca todo o ar possível, o suor escorre quente pelas têmporas.

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O striptease

– Gostaria de vê-la nua agora, por obséquio.

– Sim, senhor – ela respondeu divertida, apoiando a taça no criado mudo.

Ela ficava linda assim, com uma camiseta puída do Mickey e uma calça furada dos tempos de colégio, que não trocava por nenhum pijama de seda deste mundo.

– Taram taram, taram… taram taram taram taram taraaam… – comecei a entoar enquanto ela fazia graça no meio da minúscula sala.

– Nunca entendi por que a música de um desenho infantil virou trilha de striptease – observou, ao tirar a camiseta.

Os seios pequenos não precisavam de sutiã. Ela vivia dizendo que colocaria silicone e eu vivia ameaçando que terminaria tudo se ela o fizesse. Estava dando certo até então.

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Alexandre ou (A Doçura do Desatino)

– Olá, meu nome é Alexandre, como é o seu?

Eram nove horas da noite, a rua estava deserta e eu espiava a geladeira de uma banca solitária, último resquício de comércio aberto na Gentil de Moura. Não tive tempo de responder, apenas de apertar a mão amistosamente estendida, que já aguardava alguns segundos na mesma posição.

– Não quero te incomodar, mas é que eu sou portador de esquizofrenia e esqueci meu passe especial. Você não teria algum dinheiro para me emprestar, teria? A propósito, meu nome é Alexandre.

O rapaz da banca, ocupado com os últimos afazeres antes de fechá-la, passou a prestar mais atenção no homem. Não sei se pela menção à doença, pelo português irretocável ou pelos 2 metros que ele devia ter. Talvez tudo isso. Mas apenas eu podia fitar aqueles olhos azulíssimos, que não piscavam.

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Voa

Tu poderias ser grande. Se fosses menos covarde, se da manga tirasses coragem, se sem freio te atirasses, como quem voa e disso sabe.

Tu poderias ser grande. Caso não te preocupasses, sempre com tanta intensidade, em ter, ser, mostrar, aparecer, ganhar, consumir, trabalhar, adquirir. Se deixasses pra lá, enfim, tanta insanidade.

Tu poderias ser grande. Não serias o maior, jamais, nunca, esquece, que ideia absurda! Mas serias pouco mais que hoje, algo, alguém, um anônimo, sim, ainda sim, porém mais que ninguém.

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O nerd sem medo

Raul tem dois sonhos na vida: conhecer a Amanda (ele jura que a mulher da sua vida se chamará Amanda) e trabalhar com quadrinhos. Raul ama quadrinhos. E ama pessoas que amam quadrinhos. E ama pessoas que conhecem pessoas que amam quadrinhos.

Desde que atingiu a puberdade e viu despontarem os primeiros fios de barba, Raul ouve que é velho demais para gostar de quadrinhos. Hoje, perto dos 30 e com muitos fios de barba, Raul se acha é jovem para deixar de gostar de quadrinhos.

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Temor paulistano

Voltava pra casa depois de mais um dia absurdamente enfadonho. Parei no farol da Vergueiro com a Tancredo Neves. Fazia um frio filho da puta, mas eu estava terminando o cigarro.

Um motoqueiro parou ao meu lado. Depois de um momento, ele se aproximou e falou alguma coisa. Meu sangue ficou gelado no mesmo instante. Em uma fração de segundo, eu já pensava em como tirar a carteira e o celular do bolso sem que ele se assustasse e me desse um tiro.

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