Do outro lado

Back to black, then. Quem diria que o maior cético que você respeita cogitaria começar a crer em destino, sincronicidade, planos divinos, dívidas, enfim, com o além? Talvez eu possa ainda me justificar dizendo que nada mais presencio do que a terceira lei de Newton em curso. É uma saída, não? E manteria semi-intacto meu orgulho ateu. Até porque, ele é o único que me resta agora.

Escrever traz alguma paz. E o mais importante: evita rompantes de otimismo e dramatismo (esses últimos, sim, aos quais eu já sou tão inclinado). Coloca ideias no lugar e previne impulsos incentivados por um coração novamente quebrado. Só não tem ainda propriedades curativas, mas serve bem de analgésico enquanto o tempo não me provém a cura.

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Depois da Augusta

Despertei com meu habitual e cronometrado encerramento das vias nasais. “Tenho de me livrar logo disso”, pensei, enquanto tateava o colchão em busca do frasco que me concederia mais algumas horas de sono. Uns dormem com o celular sob o travesseiro. Eu, com cloridrato de nafazolina.

Cambaleei até o banheiro. Pela claridade que invadia o quarto, soube que o dia já amanhecera. Torci para que o relógio ainda marcasse 6 e alguma coisa, mas sem de fato conferir meu prognóstico. É sempre melhor me deitar novamente sem saber que já são 7h58 – e que dali 2 minutos vou estremecer com aquele toque polifônico que passei a detestar mais que bife de fígado.

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1095 dias

1095 dias de humilhação, de desprezo, de comiseração. De baixeza, de olhar para cima, de remorso. Assim foi, todo esse tempo. Em todas as ocasiões, nada raras, em que você resolvia aparecer. E então, numa noite qualquer de um mês nada banal, você surgiu opaca. Mais que isso: pequena.

1095 dias do mesmo enredo. Mudavam os cenários, algumas personagens, uma fala ou outra? Sim, é verdade. Mas o roteiro era, em sua essência, inalterável, inexorável. Previsível. Você sempre altiva, bela, bem sucedida no jogo e no amor, uma rainha incólume. Eu, o eterno réu, envergonhado, sujo, perverso e pervertido, quebrado, rastejante. Assim foi, todo esse tempo.

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A foto

Vi a foto de vocês. Claro que vi. E você parece feliz. O sorriso está largo, gostoso demais para ser posado. Você está radiante.

Sabe, nesses últimos anos já assisti a alguns engates como o seu. Meninas que me deram uma chance, logo desperdiçada, e que então acabaram por encontrar amor de verdade em outros braços. Mas foi sempre com indiferença e até certa frieza que as vi realizadas. Pelo menos até agora.

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Desencanto

Eu a vi passar por mim, mas ela não me notou. Seu olhar ia fixo, absorto, olhar lânguido, esbranquiçado. O andar leve e ligeiro era como que automático, levando aquelas pernas de meia-fina para longe, para casa.

Eu a vi passar por mim. E estanquei. Não porque esperasse que ela se virasse e qualquer cena utópica de reencontro tomasse vida dali. Mas porque ela se desconstruía, se dissolvia a cada passo. O som oco do salto zunia na minha cabeça, como marteladas a botar abaixo o altíssimo pedestal que levei anos para erigir, que pedra sobre pedra construí com tanto tormento e esmero.

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Sobre a noite – Parte II

Vem, sono, vem confortar mente enferma. Vem, que tua ausência tenho curado com álcool e tabaco. Vem, que já me ponho doente, desta vez não só por dentro.

Mas vem de mansinho, vem. Vem calmo, e diz lá pro teu amigo que não quero mais tanto surrealismo sombrio, que já estou farto de vê-la de preto no pé de um penhasco, céu a se partir em raios, rosto escorrido de pintura. Não quero mais vê-la assim. Aliás, diz pro teu amigo que não quero vê-la nunca mais.

Vem, então, mas vem leve e limpo. Vem como naqueles dias em que eu não conhecia a dor. Vem como se eu fosse ainda aquele menino do sorriso fácil. Vem, vem como se meu coração não fosse agora um trapo.

O striptease

– Gostaria de vê-la nua agora, por obséquio.

– Sim, senhor – ela respondeu divertida, apoiando a taça no criado mudo.

Ela ficava linda assim, com uma camiseta puída do Mickey e uma calça furada dos tempos de colégio, que não trocava por nenhum pijama de seda deste mundo.

– Taram taram, taram… taram taram taram taram taraaam… – comecei a entoar enquanto ela fazia graça no meio da minúscula sala.

– Nunca entendi por que a música de um desenho infantil virou trilha de striptease – observou, ao tirar a camiseta.

Os seios pequenos não precisavam de sutiã. Ela vivia dizendo que colocaria silicone e eu vivia ameaçando que terminaria tudo se ela o fizesse. Estava dando certo até então.

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Transitório

Àquelas depois de ti.

Aproveita enquanto sou teu. Faz de mim o que quiseres, me toca, beija, ama, deseja. Meu corpo é teu templo e nele regem tuas leis. Toma minha mão na tua e desliza pela tua pele, me ensina a te explorar. Pede, manda, grita, implora. Menina, queres saber? Pouco importa. Diz e eu o farei.

Aproveita enquanto sou teu. Mas deixa lá de pressa que ela tem rinha com a perfeição. O tempo chega quando tem de ser, e nenhum de nós pode mudar seu curso. Então deita tranquila, te aninha no meu peito, me abraça forte e sem jeito, desfruta sem relógios. Eles não podem mesmo te dizer o que queres saber.

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