O êxito da benevolência

Sempre que olho para trás, me bate uma profunda gratidão pelo Facebook ter demorado um pouco para engatar por aqui, por eu ter passado minha adolescência praticamente inteira no Orkut e em comunicadores instantâneos hoje falidos. E digo isso não porque ultimamente temos ignorado seres humanos para nos relacionarmos com smartphones. Não é disso que falo. Sou grato porque eu certamente (e ênfase no “certamente”) seria mais um “bolsomito”.

Ah, e como seria! Eu idolatraria figurinhas carimbadíssimas do nosso vexame nacional de cada dia. Levaria na carteira fotos 3×4 de Feliciano e Cunha, me masturbaria para Sheherazade, fecharia o braço com tatuagens das mais variadas com o numeral 45. Não é preciso nem dizer que contaria os dias para os 16 anos, ansioso para colar no carro de papai “Votei no Aécio, a culpa não é minha”.

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O muro

Por Davi Sabry

Seu Zé, levante um muro aqui. Se preocupe com o tamanho não, homi, que quanto mais cedo a gente começa mais logo a gente termina. Mas faça alto, que não quero cabra espigão espichando o olho pro lado de cá. Chame também Severino pra ajudar, o de Maria, do finado Zacarias. E seu inventor, João Cabral de Melo Neto, que inventou de desencarnar antes de inventar uma história boa pra falar desse grande feito muralístico.

Do lado de cá comece logo botando a Iracema de José de Alencar. E aquele tal de Nelson, o Rodrigues, pra abrir os olhos dessa gente sobre a vida, do jeitinho que ela é. E pra não dizer que não tem mascote, chame Graciliano Ramos com a cachorra Baleia pra ficar por aqui também.

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Tempo de ódio

Não que fosse diferente no passado, mas me parece nítido que a internet escancarou o chorume, jogou luz sobre os bueiros, de onde os ratos saem guinchando, ensandecidos por morder quem se coloque à sua frente.

A primeira reação, o ímpeto que me toma é o de pisar nesses roedores, chutá-los para longe, tratá-los com a baixeza que (supostamente) merecem. Encho-me de ódio, tal como eles, e me preparo para o (contra-) ataque. E só então é que me apercebo: se reagir às suas provocações no mesmo tom, passarei a integrar a ninhada.

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Mulheres más

Julgam-se melhores. E me julgam. Tomam-me por covarde. Desejam um modelo, um ideal.

Nenhuma de vocês sabe quem sou, o que carrego. E ainda assim me julgam.

Já me ponho exausto de suas censuras. Quem são vocês para me levantarem a voz, para me apontarem dedos? Mulheres de momento, mulheres más.

Entendam de uma vez: orgulho-me de minha condição. Sou grande. E a grandeza só pode ser encarada de frente, à mesma altitude. A qual, por sinal, vocês jamais alcançarão. Pois rastejam, como serpentes que são.

Ódio

No fim, aprendi que ódio não se combate com ódio. Não vou erguer meus punhos, não vou ao seu encontro com pedras nas mãos. Se perdi muito, ao menos vi que nada trazem o rancor e a raiva. Pois eu também estou machucado. Também fui ferido.

Mesmo com motivos, mesmo com razões e argumentos, aprendi a me calar. Deixarei o ódio – se é que devo cultivá-lo – para quem o merece. Deixarei os insultos, a violência, para outras causas. Ferir? Nunca mais. Ainda que eu esteja certo, nunca mais. A resiliência não vem de graça. Chorei, dia após dia, e em silêncio. Me debati, sozinho. Calei-me, todo esse tempo, e não por mim. Mas a recompensa é minha.

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