Hemos perdido aún este crepúsculo

Poema 10 do livro “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada” de Pablo Neruda. Decidi colocar o poema da forma original escrita por Neruda (em espanhol, claro) e a tradução para o português. A forma original é a original… Não tem jeito, qualquer tradução modifica a musicalidade e a simetria da linguagem do poeta. Tradução é interpretação, e interpretação é sempre criativa. Por isso, coloco o original e, em seguida, a tradução de Domingos Carvalho da Silva:

Hemos perdido aún este crepúsculo.
Nadie nos vió esta tarde con las manos unidas
mientras la noche azul caía sobre el mundo.

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Volta ao verso

Passei a ler poesia com mais afinco recentemente. Nunca fui um leitor assíduo do gênero. A maior parte do que li até hoje foi no período escolar, certamente. Na época, via com desdém e certo tédio grandes nomes como Camões, Pessoa, Neruda, Goethe, Shakespeare. Poucos são os que se apaixonam por poesia logo na adolescência. Ao menos eu não conheço muita gente que esperava ansiosa pela “prova do livro”. E eu não era diferente. Minha preferência sempre foi pela ficção, principalmente relacionada à história humana. E eis que aos 20 e poucos anos eu finalmente entendi que poesia É história humana.

Nos últimos três meses peguei dois livros que já juntavam poeira aqui na estante para ver se eu tomava gosto. O primeiro foi “Júbilo, memória, noviciado da paixão”, de Hilda Hilst. O outro foi “Rosa do Povo”, de Carlos Drummond de Andrade. E hoje começo a leitura do terceiro: “Lira dos Vinte Anos”, Álvares de Azevedo. Cheiro de depressão e ideias suicidas no ar? Que isso, impressão sua! Mas é na tristeza que você compreende os tristes. Os livros que citei acima estão comigo há muito e eu já tinha tentado pegá-los pra ler. Não consegui. Parecia outro idioma. É curioso como o estado de espírito influencia a leitura.

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Ser inteiro

“Entendo que a poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à mercê de inspirações fáceis, dóceis às modas e compromissos”.

São de Carlos Drummond de Andrade essas palavras. Duras, incisivas contra o “poeta de ocasião”, aquele que não se entrega à arte de todo. E pode ser prepotência minha, que faço exatamente o perfil criticado por ele, querer analisar sua afirmação. Mas vamos à “audácia” (que ele apreciaria).

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