Depois da Roosevelt

Confesso: nos dias depois da Roosevelt, fui tomado de assalto por um sentimento que eu há muito já havia expurgado. Exaustiva e involuntariamente, me flagrei fazendo os seguintes questionamentos: “Isso é tudo? Não vai esgotar as possibilidades? Não vai perseverar? Enfim a ‘chance’ se apresenta e você vai deixá-la escapar como areia pelos dedos? Te vejo tentando repetidas vezes terminar a droga de um jogo, mas ao primeiro revés numa empreitada de real importância você atira longe o controle?”.

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Amém

– Ei, grande! Tu aí! Psiu!

Eu caminhava apressado (como sempre) pelo Largo da Batata, era uma terça-feira fria, feia e atrasada, mas parei e me virei.

– Me diga aí uma passagem da Bíblia!

Sentado sobre um colchonete, pertences por todo lado, ele abriu um sorriso amarelo-avermelhado. Um filete de sangue escorria pelos seus dentes inferiores, e eu tive um calafrio.

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Não sou Ivan

Não havia melhor lugar para terminar a leitura de “A Morte de Ivan Ilitch” que o metrô abarrotado das 8 horas da manhã. Ergui lentamente a cabeça (a única parte do corpo que me era possível mover) e fitei com torpor os rostos em transe, mergulhados em seus universos portáteis particulares. Pensei: vamos todos morrer como Ivan.

Leon Tolstói nos conta a história de Ilitch desde seus ternos dias, passando pela viçosa juventude e chegando à sólida maturidade. Rapaz brilhante, ascende com ambição e malícia em sua carreira jurídica. Chega ao topo como juiz, e de lá fita a si mesmo com orgulho – e os demais com altivez.

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O trânsito parou

Por Leila Leal Lima

O trânsito parou. Eu também parei. O pensamento continuou em qualquer detalhe da última reunião antes de deixar o escritório. Quatro crianças se aproximavam dos carros em fila. Deviam ter entre três e oito anos. Irmãos, talvez. Mas e os pais? Onde estão? Não vejo pais. Só as crianças: quatro. Sabe, não gosto de dar dinheiro no farol. Dinheiro, não. Dou qualquer outra coisa que estiver no carro, mas dinheiro não gosto, não. Acontece que criança mexe com a gente, né? Um dos menores encosta no meu carro. Chuto que ele tem quatro anos. Devo ter alguma coisa na bolsa, deixa eu pegar a bolsa… só mais um pouco que ela está embaixo do banco… Como me irrita ter que esconder a bolsa embaixo do banco. Mas estou em São Paulo: tenho que esconder a bolsa, fechar o vidro do carro e sair mais cedo do trabalho às sextas por causa do rodízio. “Tia, você tem água?”. Eu não tinha alcançado a bolsa ainda. Ele queria água. Eu tinha água. Caramba, eu nunca fiquei tão contente em ter uma garrafa d’água dentro do meu carro! Pelos olhos dele, ele também não. “Obrigado, tia”. Pausa. “Seu carro está machucado, você viu?” – e apontou para a batida na minha lateral esquerda. O trânsito andou. Eu também andei.

Não, meu carro não está machucado, pequeno desconhecido. Eu que estou.

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Escravidão moderna

“Defeito principal dos homens ativos – Aos homens ativos falta habitualmente a atividade superior, quero dizer, a individual. Eles são ativos como funcionários, comerciantes, eruditos, isto é, como representantes de uma espécie, mas não como seres individuais e únicos; neste aspecto são indolentes. – A infelicidade dos homens ativos é que sua atividade é quase sempre um pouco irracional. Não se pode perguntar ao banqueiro acumulador de dinheiro, por exemplo, pelo objetivo de sua atividade incessante: ela é irracional. Os homens ativos rolam tal como pedra, conforme a estupidez da mecânica. – Todos os homens se dividem, em todos os tempos e também hoje, em escravos e livres; pois aquele que não tem dois terços do dia para si é escravo, não importa o que seja: estadista, comerciante, funcionário ou erudito“.

Friedrich Nietzsche, em “Humano, Demasiado Humano”, 283.

A locadora

É meio estranho ter realmente idade para bancar o saudosista. Quando adolescente, eu insistia em dizer: “No meu tempo…”. Ora, quanta petulância para alguém que nem sabia o que era um barbeador! Pois agora eu posso usar essa expressão. E não sei se isso é exatamente bom.

Pois bem. Outro dia passei em frente a uma antiga locadora de fitas da qual eu era cliente assíduo. Imagino que a geração Z não faça muita ideia do que seja uma locadora. Aliás, ela já nasceu na derrocada da Blockbuster, que de alguma forma está se segurando e ainda não faliu.

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