Primavera concretada

Já são quase 7 anos de Brigadeiro Faria Lima. Ao menos 1.345 dias do mesmo trajeto entre o metrô e o edifício onde vendo 160 horas do meu mês por uma cifra que nunca dura até o fim dele. E só hoje é que me dei conta de um discreto espetáculo encravado já no término desse fastidioso percurso de 350 metros.

Desconheço a espécie da árvore e de suas flores. Tampouco compreendo de onde a flora paulistana extrai forças para vigorar em meio a tanto dióxido de carbono, urina humana e bitucas depositadas às suas raízes. Mas sei o seguinte: sua valentia em florescer, tão espremida entre concreto e aço, me fez estancar no meio da caminhada e fazer o registro abaixo:

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Motivo(s)

Toda manhã, preciso encontrar um motivo para tirar o corpo pesado da cama. Não há que ser uma razão lá tão nobre, tampouco inspiradora, mas ela precisa estar ali.

Há dias em que penso apenas no Maker’s Mark que vou tomar ao chegar em casa. Noutros, lembro que tenho uma quest das mais cabeludas para terminar no Skyrim. Pequenezas, das mais miúdas mesmo, mas que me dão algum prazer depois de um expediente maçante.

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Mais um rosto

Vestia uma jaqueta preta, blusinha verde sem estampas, calça jeans, All Star branco. Usava óculos. E dava pra notar que era por necessidade. Parecidos com os meus, quadradinhos, mas de armação mais discreta. Tinha cabelos ruivos, lisos, e estavam presos. Julgo que deveriam passar mais de um palmo de seus ombros se soltos.

Não era muito alta, devia ficar abaixo do meu queixo. Talvez um metro e sessenta. Era magra, chuto uns 50 quilos. Tinha pele bem branca, que contrastava com o esmalte roxo, já meio desgastado. Tinha também algumas sardas perto dos olhos e no nariz. Não ostentava anéis, mas vi um cordão prateado em seu pescoço. No lugar de brincos, pequenos alargadores pretos.

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Dois dias

Eles todos são iguais, por mais que não pareça. O Sol nasce e se põe da mesma forma. Todos têm 24 horas e elas correm matematicamente do mesmo jeito, ainda que você insista em dizer “mas que dia longo!”.

Porém, uma ordem, um sistema, uma convenção humana tornam alguns dias piores do que outros. Você é levado a acreditar que só são bonitos aqueles dias em que você não é obrigado a ficar oito horas sentado em frente a uma tela.

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