Doña Ruth

Logo que entrei no ônibus, pensei: “O ar-condicionado é mesmo a melhor invenção do homem. Talvez só a cura do câncer possa tirá-lo do pódio. Talvez”. Num país em que no inverno faz 25 graus, é de se imaginar que haja refrigeração em cada cm², certo? Correto, a não ser que estejamos falando de uma ilha caribenha parada no tempo.

Havana, Cuba, 35 graus com sensação de 50. E ainda era primavera. Depois de uma semana respirando revolução e tabaco (dias que descreverei em outra oportunidade), resolvi que queria conhecer outra face da ilha: uma sem tantos europeus de camisas floridas e chapéus panamá. Embarquei, portanto, para Trinidad.

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À tua partida

Todo meu sentimento cruzará mares. Leva contigo minha estima enquanto estas palavras permanecem duras em folhas vindas d’outro mundo. Leva contigo minha estima, irmão. Leva contigo meu sentimento. Se confiei em tua mão, confia em meu coração.

4:16 A.M. – 16/04/2015

Sem título

Palavras no papel já não mais expressam a falta que tu me fazes, palavras ao vento não te chegam aos ouvidos, e me resta a saudade que vagarosa me dilacera por dentro.

Pensei ter te dito, na aurora daquele dia, tudo que sentia ante teus verdes olhos que me roubavam a voz. E hoje, a cada crepúsculo iminente, a cada brisa mansa que mais parece tua voz a sussurrar, percebo que tinha mais a dizer.

Mas quem de antemão espera os revezes do futuro? Minh’alma padece e a carne não a espelha, mas bem gostaria eu que assim fosse.

Escrito em 2007Para ver mais textos produzidos antes da criação deste blog, use a tag “arquivo”.

A locadora

É meio estranho ter realmente idade para bancar o saudosista. Quando adolescente, eu insistia em dizer: “No meu tempo…”. Ora, quanta petulância para alguém que nem sabia o que era um barbeador! Pois agora eu posso usar essa expressão. E não sei se isso é exatamente bom.

Pois bem. Outro dia passei em frente a uma antiga locadora de fitas da qual eu era cliente assíduo. Imagino que a geração Z não faça muita ideia do que seja uma locadora. Aliás, ela já nasceu na derrocada da Blockbuster, que de alguma forma está se segurando e ainda não faliu.

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O menino do autorama

Todo mês passo à rua Tiradentes para ir à minha dermatologista. Não há nada que pareça especial nessa rua. Um salão de beleza, um boteco que serve PFs e doses de cachaça generosos, um autorama abandonado.

Na verdade, trata-se da garagem de um sobrado, onde já funcionou um autorama. O ano era 1998, o lugar era colorido, metido a futurista, e tinha máquinas de refrigerante e salgadinhos. É óbvio que eu obrigava meu pai a me levar lá toda semana.

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Se essa rua fosse minha

Hoje li alguma coisa sobre aquela cantiga popular “Se essa rua fosse minha”. Não lembro exatamente o que li e nem onde, mas não importa. O que importa é que imediatamente me lembrei de que meu pai cantava essa música para me fazer dormir. Um déjà vu meio estranho me acometeu, e eu fiquei alguns minutos embasbacado, ruminando a doce e fragmentada memória daquele tempo.

Me bateu um arrepio, de verdade. Quanta saudade! Saudade de momentos que nem consigo recordar direito, visto que eu era um projeto de gente. Mas, se me falta a precisão visual, me sobra a sonora. A voz grave do meu pai, que alcançava as notas do final de cada estrofe, invadiu meus ouvidos, em silêncio, e me tomou de alegria. Assim, numa tarde quente, enquanto eu trabalhava.

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Meu grande Antonio

Grande contador de histórias, do sorriso fácil. Homem de fé, de alegria e de força. Muita força. Esteve frente à morte mais de uma vez. E voltou. Mas, naquela noite, Deus foi firme: “Deixe de preguiça, Antonio. Sente-se aqui ao meu lado”. Com dor é que me despedi.

Não fui seu neto de sangue, mas de coração. E que coração! Desde que me conheço por gente, lembro de sua barba espessa, bem branca. Cabelos fartos, como se tirassem sarro da própria idade. Braços fortes, abraço caloroso. Oh, meu avô, que saudade!

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