Primavera concretada

Já são quase 7 anos de Brigadeiro Faria Lima. Ao menos 1.345 dias do mesmo trajeto entre o metrô e o edifício onde vendo 160 horas do meu mês por uma cifra que nunca dura até o fim dele. E só hoje é que me dei conta de um discreto espetáculo encravado já no término desse fastidioso percurso de 350 metros.

Desconheço a espécie da árvore e de suas flores. Tampouco compreendo de onde a flora paulistana extrai forças para vigorar em meio a tanto dióxido de carbono, urina humana e bitucas depositadas às suas raízes. Mas sei o seguinte: sua valentia em florescer, tão espremida entre concreto e aço, me fez estancar no meio da caminhada e fazer o registro abaixo:

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Cabo de guerra

Dia desses me lembrei sem motivo de uma historinha boba, porém bastante ilustrativa de como o machismo é onipresente e machuca também os homens.

Quando eu contava uns 10 anos, se sucedeu a seguinte situação: no aquecimento para um treino de taekwondo (arte que eu largaria pouco tempo depois), o professor resolveu inovar. A brincadeira era fazer testes de força entre meninos e meninas, que incluíam cabo de guerra e imobilização.

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MMORPG: Mate goblins com moderação

Logo após me formar em Jornalismo, em 2011, achei que seria uma boa ideia engatar uma pós-graduação sem nenhum tempo de descanso. Foi o que fiz. Três meses depois de entregar meu TCC, estava de volta à sala de aula. Como eu deveria ter previsto, a experiência não foi das melhores e acabei trancando o curso.

Mas nem tudo é perda de tempo. Abaixo deixo um artigo que escrevi para uma das disciplinas, que levava o pomposo nome de “Interatividade, Tecnologia e Ubiquidade”.

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A voz de lá

– E você acha que a comunidade vai melhorar ou piorar nos próximos 2 anos?
– Melhorar que jeito, meu filho? Este buraco aqui foi esquecido até por Deus…

27 de fevereiro, Carapicuíba, São Paulo

O dia começou cedo, e a noite anterior acabara tarde. Ainda não eram 6 horas quando aumentaram absurdamente o volume de “Viva La Vida” – e isso talvez explique por que passei a odiar Coldplay desde então. Com uma animação que não é característica de seres humanos antes das 10h, dois rapazes batiam palmas e bradavam palavras de encorajamento para arrancar 50 jovens mal humorados de seus sacos de dormir.

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O êxito da benevolência

Sempre que olho para trás, me bate uma profunda gratidão pelo Facebook ter demorado um pouco para engatar por aqui, por eu ter passado minha adolescência praticamente inteira no Orkut e em comunicadores instantâneos hoje falidos. E digo isso não porque ultimamente temos ignorado seres humanos para nos relacionarmos com smartphones. Não é disso que falo. Sou grato porque eu certamente (e ênfase no “certamente”) seria mais um “bolsomito”.

Ah, e como seria! Eu idolatraria figurinhas carimbadíssimas do nosso vexame nacional de cada dia. Levaria na carteira fotos 3×4 de Feliciano e Cunha, me masturbaria para Sheherazade, fecharia o braço com tatuagens das mais variadas com o numeral 45. Não é preciso nem dizer que contaria os dias para os 16 anos, ansioso para colar no carro de papai “Votei no Aécio, a culpa não é minha”.

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A sentença

O coração inchado esmaga-lhe o peito, e bombeia, desesperado, golfadas de sangue que inflam suas artérias, levando o oxigênio que ele queima quase que instantaneamente a cada passada. O aperto na garganta dificulta ainda mais a respiração já entrecortada e ofegante.

Sente as pernas arderem, queimarem. É como se massageassem seus músculos com um ferro de passar. As pupilas estão dilatadas, a boca escancarada busca todo o ar possível, o suor escorre quente pelas têmporas.

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