1095 dias

1095 dias de humilhação, de desprezo, de comiseração. De baixeza, de olhar para cima, de remorso. Assim foi, todo esse tempo. Em todas as ocasiões, nada raras, em que você resolvia aparecer. E então, numa noite qualquer de um mês nada banal, você surgiu opaca. Mais que isso: pequena.

1095 dias do mesmo enredo. Mudavam os cenários, algumas personagens, uma fala ou outra? Sim, é verdade. Mas o roteiro era, em sua essência, inalterável, inexorável. Previsível. Você sempre altiva, bela, bem sucedida no jogo e no amor, uma rainha incólume. Eu, o eterno réu, envergonhado, sujo, perverso e pervertido, quebrado, rastejante. Assim foi, todo esse tempo.

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Sobre a noite – Parte II

Vem, sono, vem confortar mente enferma. Vem, que tua ausência tenho curado com álcool e tabaco. Vem, que já me ponho doente, desta vez não só por dentro.

Mas vem de mansinho, vem. Vem calmo, e diz lá pro teu amigo que não quero mais tanto surrealismo sombrio, que já estou farto de vê-la de preto no pé de um penhasco, céu a se partir em raios, rosto escorrido de pintura. Não quero mais vê-la assim. Aliás, diz pro teu amigo que não quero vê-la nunca mais.

Vem, então, mas vem leve e limpo. Vem como naqueles dias em que eu não conhecia a dor. Vem como se eu fosse ainda aquele menino do sorriso fácil. Vem, vem como se meu coração não fosse agora um trapo.

O striptease

– Gostaria de vê-la nua agora, por obséquio.

– Sim, senhor – ela respondeu divertida, apoiando a taça no criado mudo.

Ela ficava linda assim, com uma camiseta puída do Mickey e uma calça furada dos tempos de colégio, que não trocava por nenhum pijama de seda deste mundo.

– Taram taram, taram… taram taram taram taram taraaam… – comecei a entoar enquanto ela fazia graça no meio da minúscula sala.

– Nunca entendi por que a música de um desenho infantil virou trilha de striptease – observou, ao tirar a camiseta.

Os seios pequenos não precisavam de sutiã. Ela vivia dizendo que colocaria silicone e eu vivia ameaçando que terminaria tudo se ela o fizesse. Estava dando certo até então.

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Motivo(s)

Toda manhã, preciso encontrar um motivo para tirar o corpo pesado da cama. Não há que ser uma razão lá tão nobre, tampouco inspiradora, mas ela precisa estar ali.

Há dias em que penso apenas no Maker’s Mark que vou tomar ao chegar em casa. Noutros, lembro que tenho uma quest das mais cabeludas para terminar no Skyrim. Pequenezas, das mais miúdas mesmo, mas que me dão algum prazer depois de um expediente maçante.

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O dia em que saí comigo

Dias atrás tive uma das mais bizarras (e interessantes) experiências da minha vida. Sonhei que estava “dentro” da primeira menina que amei, e vi por meio de seus olhos nosso primeiro encontro. Ou seja: me vi de frente, acompanhei cada gesto meu.

E tudo que se passou no sonho aconteceu de fato na vida real. Foi uma reconstituição perfeita, que segue abaixo sob a ótica daquela garota (ou sob minha ótica dentro dela).

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Instante

Vieram me avisar que ela estava à minha espera, em frente à minha casa. Saí ao seu encontro, ansioso, esbaforido, trombando em tudo pela frente.

O dia estava lindo, o céu dourado tentava imitar a cor das folhas que despencavam das árvores. O vento trazia um perfume que não sei se vinha dela ou daquela tarde de outono.

E lá estava ela. Ao perceber que me fitava, subitamente tentei parecer calmo, levemente indiferente, como se não estivesse absurdamente feliz por vê-la.

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Breve paternidade

Sonhei que era pai. O menino era lindo (talvez fosse adotado então) e parecia ter uns 5 meses. A mãe não era nenhuma pessoa conhecida. Ou presente. Éramos só nós dois. O moleque também não tinha nome. Aliás, ele não tinha muita coisa além de mim, e eu além dele.

O cenário não era dos mais promissores. Um apartamento sujo, apertado, abafado. Eu mal conseguia andar, mais pela bagunça do que pelo tamanho do lugar. No banheiro havia aqueles espelhos antigos, que quando puxados revelam “mini prateleiras” atrás, com escova, pasta, fio dental, pente. O sonho começou aí. Terminei de escovar os dentes e fechei o espelho. Ele estava trincado e dividia meu rosto em várias miniaturas bizarras. Mesmo assim dava pra ver uma barba enorme e olheiras maiores ainda. Minha cara não estava nada boa.

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O absurdo nosso de cada dia nos dai hoje

Eu sempre sou mestre em artes marciais nos meus sonhos. Outro dia sonhei que saía no tapa com um amigo e ele virava o Miguel Falabella no meio da briga. Tipo um superpoder, sabe? Não deu certo pra ele. Espanquei o cara. Ou melhor, o Falabella. Afinal, eu manjava muito de jeet kune do. E usava um espeto de churrasco também, o que não foi muito justo, admito. De qualquer forma, tanto meu amigo quanto a sua “evolução” eram bem maiores que eu, que apesar de lutar muito ainda continuava magrelo.

Uma coisa que me irrita muito é ficar rico nos sonhos. Ou obter qualquer coisa que me agrade muito. Eu tenho sempre (sempre!) plena consciência de que vou acordar sem aquilo que eu consegui. Uma vez travei uma discussão comigo mesmo. Estava na mansão de Pablo Escobar e tinha que decidir entre arrebentar o Bruce Lee ou sair coletando anéis preciosos pela casa. Eu falei pra mim mesmo: “O sonho vai ser muito mais legal se você cair pra porrada. Você sabe que não vai acordar com esses anéis”. E eu respondi: “Mas eu sempre ganho. Procurar alguma coisa nessa mansão vai ser muito mais desafiador”. Tirei legal com a cara do Bruce!

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Tormento

Ele sonha.

Com ela. Com demônios. Com rostos. Com luzes.

Ele sonha.

Acordado. Assustado. Lívido. Aturdido.

Ele sonha.

Cálices. Facas. Velas. Livros.

Ele sonha.

Vozes. Sussurros. Gritos. Gemidos.

Ele sonha.

E não quer mais sonhar.

Ele sonha

Que já vai despertar.