Do outro lado

Back to black, then. Quem diria que o maior cético que você respeita cogitaria começar a crer em destino, sincronicidade, planos divinos, dívidas, enfim, com o além? Talvez eu possa ainda me justificar dizendo que nada mais presencio do que a terceira lei de Newton em curso. É uma saída, não? E manteria semi-intacto meu orgulho ateu. Até porque, ele é o único que me resta agora.

Escrever traz alguma paz. E o mais importante: evita rompantes de otimismo e dramatismo (esses últimos, sim, aos quais eu já sou tão inclinado). Coloca ideias no lugar e previne impulsos incentivados por um coração novamente quebrado. Só não tem ainda propriedades curativas, mas serve bem de analgésico enquanto o tempo não me provém a cura.

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Sangue frio

Dentro mora algo, peçonha, que me muda e me mata. Não sou eu, mas é meu. Criei, criou raízes, criados juntos.

Rasteja, puxa, segura, atormenta. Eclode e me faz bicho, ogro. Com fome. De dor. Me perco e perco amados. Naja, serpente, me deixa (ser gente).

Já não posso me desculpar com quem morde(mos). “Ora, se é sua, por que não a doma?”. Ora, dama, porque eu é que sou dela.

Verme, rasteja, vá, longe de mim. Já é tempo. Nada mais me pode tirar.

Antídoto. Que há de cura fora a morte dupla? Inocula ou me corta, que já não tolero dividir cama com sangue frio.

Já não tolero a mim mesmo.

Insônia

Vez ou outra que não consigo dormir, começo a rezar o Pai Nosso. Repetidamente. Fato curioso vindo de um ateu, eu sei. Mas me acalma de alguma forma. Vai ver é pela simples repetição de palavras, que culmina em exaustão mental. Vai ver é pela criação protestante, os longos anos de cultos dominicais. Pois hoje é domingo, mas a presença que tenho aqui comigo não é das mais divinas.

Acendo um cigarro na janela. Vejo a chuva cair com violência e quebrar ramos das plantas que ela deveria nutrir. Orações decoradas não vão me ajudar hoje. A noite será insone. Confesso que nunca entendi a expressão “em claro”. Se tem algo que me falta junto do sono é sempre a clareza. E é por isso que a insônia me irrita tanto: porque não fode nem sai de cima. Não deixa descansar nem refletir. Horas de vida desperdiçadas.

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1095 dias

1095 dias de humilhação, de desprezo, de comiseração. De baixeza, de olhar para cima, de remorso. Assim foi, todo esse tempo. Em todas as ocasiões, nada raras, em que você resolvia aparecer. E então, numa noite qualquer de um mês nada banal, você surgiu opaca. Mais que isso: pequena.

1095 dias do mesmo enredo. Mudavam os cenários, algumas personagens, uma fala ou outra? Sim, é verdade. Mas o roteiro era, em sua essência, inalterável, inexorável. Previsível. Você sempre altiva, bela, bem sucedida no jogo e no amor, uma rainha incólume. Eu, o eterno réu, envergonhado, sujo, perverso e pervertido, quebrado, rastejante. Assim foi, todo esse tempo.

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Sobre a noite – Parte II

Vem, sono, vem confortar mente enferma. Vem, que tua ausência tenho curado com álcool e tabaco. Vem, que já me ponho doente, desta vez não só por dentro.

Mas vem de mansinho, vem. Vem calmo, e diz lá pro teu amigo que não quero mais tanto surrealismo sombrio, que já estou farto de vê-la de preto no pé de um penhasco, céu a se partir em raios, rosto escorrido de pintura. Não quero mais vê-la assim. Aliás, diz pro teu amigo que não quero vê-la nunca mais.

Vem, então, mas vem leve e limpo. Vem como naqueles dias em que eu não conhecia a dor. Vem como se eu fosse ainda aquele menino do sorriso fácil. Vem, vem como se meu coração não fosse agora um trapo.

Transitório

Àquelas depois de ti.

Aproveita enquanto sou teu. Faz de mim o que quiseres, me toca, beija, ama, deseja. Meu corpo é teu templo e nele regem tuas leis. Toma minha mão na tua e desliza pela tua pele, me ensina a te explorar. Pede, manda, grita, implora. Menina, queres saber? Pouco importa. Diz e eu o farei.

Aproveita enquanto sou teu. Mas deixa lá de pressa que ela tem rinha com a perfeição. O tempo chega quando tem de ser, e nenhum de nós pode mudar seu curso. Então deita tranquila, te aninha no meu peito, me abraça forte e sem jeito, desfruta sem relógios. Eles não podem mesmo te dizer o que queres saber.

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Mais um breve diálogo

– Tu escreves como se tua história a alguém interessasse, até com certa soberba. Achas mesmo que juntar algumas palavras bonitas faz de ti qualquer grande coisa, que te confere importância?

– É a sina de todo aquele que despeja sobre o papel suas mazelas. Tendem a amenizar as críticas quando partimos, quando sob muita terra já vermes devoram nossa carne. Aí, de repente, não mais que de repente, somos alguém, já perdemos a aura pretensiosa e arrogante à qual tu te referes. Não te soa por demais injusto? Quiçá até triste?

– Sabes bem como me desarmar, como sempre. Tens razão, não me parece correta tal postura. Ou tu és admirado em vida e também depois dela ou não deverias sê-lo em momento algum para começar. Pensas que serás alvo desse nefasto julgamento?

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Cidade do amor

Que sombra é esta que te cai na face, acabas de ter-me e já te colocas nublado, É nada, deixa estar, exaurido somente, Elogias-me, Também, alcança-me o charuto, Cá está, Agora quem retorce o rosto és tu, Bem sabes que não me apetece o odor de tua morte lenta, Apenas de meu suor a pingar-te na testa, esse sim. A bela abriu sorriso largo, se pôs de pé e passos leves a levaram à sacada. Nua para toda Paris por ti apaixonar-se, É a cidade do amor, o qual, aliás, imagino se por mim ainda nutres, Disparate é esse meu bem, Sê franco, há muito teu coração só pulsa por fumo, uísque e meretrizes, Ofendes-me, Culpa não é minha que escolhas as mais feias, Basta. Levantou-se e foi ter dose de qualquer 12 anos.

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