Doña Ruth

Logo que entrei no ônibus, pensei: “O ar-condicionado é mesmo a melhor invenção do homem. Talvez só a cura do câncer possa tirá-lo do pódio. Talvez”. Num país em que no inverno faz 25 graus, é de se imaginar que haja refrigeração em cada cm², certo? Correto, a não ser que estejamos falando de uma ilha caribenha parada no tempo.

Havana, Cuba, 35 graus com sensação de 50. E ainda era primavera. Depois de uma semana respirando revolução e tabaco (dias que descreverei em outra oportunidade), resolvi que queria conhecer outra face da ilha: uma sem tantos europeus de camisas floridas e chapéus panamá. Embarquei, portanto, para Trinidad.

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Amor patagônico

O dia amanheceu bravo, o vento cortava a pele e minhas mãos azuladas tremiam ao segurar o cigarro. Sensação de -7ºC. Muita coisa. Mesmo para um paulista.

Alejandro chegou. Grande amigo que fiz lá mesmo, em Ushuaia. Era dia de fazer a tão famosa viagem de barco e torcer por pinguins. Ou até mesmo uma orca, quem sabe?

– Vamos con eso! Quita con su cigarrillo que también tengo frío, dale? – ele fazia sempre questão de me lembrar que os nativos sofrem tanto quanto os turistas.

Embarcamos. No fim, eu não veria pinguins nem orcas, mas algo muito mais interessante. Logo que entramos, meus olhos encontraram os de uma das garçonetes, tão negros que íris e pupila pareciam uma coisa só.

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O absurdo nosso de cada dia nos dai hoje

Eu sempre sou mestre em artes marciais nos meus sonhos. Outro dia sonhei que saía no tapa com um amigo e ele virava o Miguel Falabella no meio da briga. Tipo um superpoder, sabe? Não deu certo pra ele. Espanquei o cara. Ou melhor, o Falabella. Afinal, eu manjava muito de jeet kune do. E usava um espeto de churrasco também, o que não foi muito justo, admito. De qualquer forma, tanto meu amigo quanto a sua “evolução” eram bem maiores que eu, que apesar de lutar muito ainda continuava magrelo.

Uma coisa que me irrita muito é ficar rico nos sonhos. Ou obter qualquer coisa que me agrade muito. Eu tenho sempre (sempre!) plena consciência de que vou acordar sem aquilo que eu consegui. Uma vez travei uma discussão comigo mesmo. Estava na mansão de Pablo Escobar e tinha que decidir entre arrebentar o Bruce Lee ou sair coletando anéis preciosos pela casa. Eu falei pra mim mesmo: “O sonho vai ser muito mais legal se você cair pra porrada. Você sabe que não vai acordar com esses anéis”. E eu respondi: “Mas eu sempre ganho. Procurar alguma coisa nessa mansão vai ser muito mais desafiador”. Tirei legal com a cara do Bruce!

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A Viagem de Clarice – Parte V

“O dono da verdade absoluta. Quem ele pensa que é? Existe sequer alguma verdade em nosso mundo? Alguma verdade absoluta?” Clarice questionava a si mesma enquanto o humanoide continuava a falar sem parar.

“Nem sequer sei se o que vivo é real, se o que vivi até agora, em minha vida mundana, pode ser considerado real. Talvez eu seja apenas uma ideia. Uma ideia de existência, e por algum motivo, que ainda vou descobrir, essa ideia que eu “existo” veio parar aqui, nessa realidade paralela, nesse inferno”.

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Eu, comigo

Depois de quatro finais de semana trancado em casa ruminando minha depressão, resolvi que era hora de tomar um banho, ajeitar a barba e ver o Sol (e que Sol, cacete!). Peguei o carro, joguei umas roupas na mochila e fui. Foi a primeira de várias viagens que quero começar a fazer. Concluí que tenho pouco tempo e muita coisa pra conhecer.

Como decidi de repente, fui para um destino conhecido, em que sabia o que fazer e onde ficar. Um hostel em São Sebastião, quarto compartilhado. Mas, o mais importante: sozinho. Nunca tinha viajado sozinho antes. Ou tinha gente comigo ou no lugar para onde estava indo. Desta vez não. Eu precisava (e ainda preciso) ficar sozinho.

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New York, New York

Em agosto do ano passado passei alguns dias em Nova Iorque (sim, “Iorque”). Estadia curta, mas marcante. Como previa, me apaixonei pela cidade que nunca dorme. Ou pelo menos pelo coração dela, já que fiquei apenas em Manhattan.

Não sou viajante experiente. Foi a primeira vez que deixei nossas terras. E algo como a quinta vez que embarquei em um avião. Por isso eu permito que vocês desconfiem um pouco do que vou dizer aqui. Mas não muito. Não sou fã do Tio Sam nem tinha um “sonho” de visitá-lo.

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A Viagem de Clarice – Parte IV

Caminharam por mais alguns metros na estrada em meio a densa floresta até chegarem em um descampado onde avistaram a base da torre, com uma enorme porta negra que dava acesso ao seu interior.

“Clarice, a partir de agora não posso mais te acompanhar. O mestre prefere ficar a sós com os humanos. Entre na torre e procure Dantalion”.

Clarice sabia que não adiantava pedir para que Yin lhe acompanhasse. Assim, se dirigiu até a entrada da torre. Parou em frente a enorme porta negra e leu uma inscrição gravada no rodapé superior: “Uma vida não questionada não merece ser vivida”, lembrou de já ter lido essa frase em algum lugar, sentiu um tremendo medo do que estava para acontecer.

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A Viagem de Clarice – Parte III

Desceram a íngreme escada e Clarice seguiu Yin pelo desértico campo do chamado átrio central.

Clarice pensava no tal Dantalion aflita, imaginava que seria escravizada como aqueles tantos que trabalhavam naquele campo, sendo condenada ao sofrimento eterno: “Será isso que me aguarda? É provável, certamente o inferno não será nada agradável, estou condenada a sofrer eternamente”.

Conforme avançavam, Clarice via criaturas parecidas com Yin, porém mais austeras, açoitando e agredindo os humanos que eram forçados a trabalhar sem intervalos.

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A Viagem de Clarice – Parte II

Ao ouvir a notícia da cadavérica figura Clarice desatou a gargalhar “Claro, agora eu tenho certeza que estou mesmo tendo um estranho sonho. Se assim você me diz, como morri então?”

Yin em uma fração de segundo se materializou em frente a Clarice e encarou-a com seu olhos negros e opacos em meio ao turbante, fitando-a com as sobrancelhas arqueadas.

“Fazia tempo que não ouvia risos nesta câmara. Não sei a causa de sua morte. Há muito que não tenho contato com as trivialidades e os detalhismos do mundo físico e de seu povo, mas vou te levar a um local onde terá mais respostas”.

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A Viagem de Clarice – Parte I

Assim que Clarice abriu os olhos, percebeu que não sabia o lugar em que estava, olhou para o teto rochoso do local e de imediato ouviu um voz grave e rouca ressoar dentro de sua mente.

“Seja bem-vinda Clarice, a sua viagem começa agora. Infelizmente não posso te fornecer muitas informações do lugar onde você se encontra por enquanto; você terá de descobrir sozinha. Mas já te adianto: aqui não é sua casa.”

Clarice levantou devagar, sentia fortes dores nas costas, talvez tenha sofrido uma queda, mas não se lembrava de nada. Sua última recordação foi ter ido dormir após chegar da faculdade ontem, terça-feira.

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