A comichão da pré-independência

Há quase uma década, eu entregava minha primeira redação no curso de Jornalismo. Com recém-completados 18 anos, é verdade que eu alimentava ainda muitas ilusões, sendo a mais grave – e hoje risível – delas a de que era possível ganhar um bom dinheiro com o diploma de jornalista. De toda forma, já era latente uma pitada de realismo (ou pessimismo?), aliada a um bom humor do qual sinto falta. Fiquei mais amargo com o tempo. Transcrição abaixo.

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O caçador de afeto

Faltavam poucas horas para meu voo decolar do Arturo Benítez, único aeroporto de Santiago, e eu ainda vasculhava a feira artesanal de Santa Lucía em busca de alguma alpaca em imperdível promoção. Mesmo em novembro e sob um sol de quase 30 graus, os chilenos não cediam, mantendo em 10 mil pesos essas blusas de lã. Desanimado, resolvi descansar num banco e bebericar a água sulfurosa que eles vendem por lá. Era hora de ir, e ainda sentado dei uma última espiada nos estandes em volta para garantir que comprara tudo que queria. Foi então que avistei uma pequena caixa, no chão, abarrotada de livros. Levantei-me como um relâmpago.

Se tem algo que me encanta são livros. Melhor: livros velhos. Melhor ainda: livros velhos e com dedicatória. Sebos ou feiras de livros usados são paradas obrigatórias em qualquer viagem que faço, e no Chile não foi diferente. Dias antes, eu passara boas horas enfiado numa “librería”, lutando bravamente com a minha rinite. Na ocasião, não encontrei o que buscava. Minha última esperança, portanto, estava nesse baú de madeira. Era a derradeira chance de achar um exemplar de Pablo Neruda.

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Primavera concretada

Já são quase 7 anos de Brigadeiro Faria Lima. Ao menos 1.345 dias do mesmo trajeto entre o metrô e o edifício onde vendo 160 horas do meu mês por uma cifra que nunca dura até o fim dele. E só hoje é que me dei conta de um discreto espetáculo encravado já no término desse fastidioso percurso de 350 metros.

Desconheço a espécie da árvore e de suas flores. Tampouco compreendo de onde a flora paulistana extrai forças para vigorar em meio a tanto dióxido de carbono, urina humana e bitucas depositadas às suas raízes. Mas sei o seguinte: sua valentia em florescer, tão espremida entre concreto e aço, me fez estancar no meio da caminhada e fazer o registro abaixo:

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Depois da Augusta

Despertei com meu habitual e cronometrado encerramento das vias nasais. “Tenho de me livrar logo disso”, pensei, enquanto tateava o colchão em busca do frasco que me concederia mais algumas horas de sono. Uns dormem com o celular sob o travesseiro. Eu, com cloridrato de nafazolina.

Cambaleei até o banheiro. Pela claridade que invadia o quarto, soube que o dia já amanhecera. Torci para que o relógio ainda marcasse 6 e alguma coisa, mas sem de fato conferir meu prognóstico. É sempre melhor me deitar novamente sem saber que já são 7h58 – e que dali 2 minutos vou estremecer com aquele toque polifônico que passei a detestar mais que bife de fígado.

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Depois da Roosevelt

Confesso: nos dias depois da Roosevelt, fui tomado de assalto por um sentimento que eu há muito já havia expurgado. Exaustiva e involuntariamente, me flagrei fazendo os seguintes questionamentos: “Isso é tudo? Não vai esgotar as possibilidades? Não vai perseverar? Enfim a ‘chance’ se apresenta e você vai deixá-la escapar como areia pelos dedos? Te vejo tentando repetidas vezes terminar a droga de um jogo, mas ao primeiro revés numa empreitada de real importância você atira longe o controle?”.

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Amém

– Ei, grande! Tu aí! Psiu!

Eu caminhava apressado (como sempre) pelo Largo da Batata, era uma terça-feira fria, feia e atrasada, mas parei e me virei.

– Me diga aí uma passagem da Bíblia!

Sentado sobre um colchonete, pertences por todo lado, ele abriu um sorriso amarelo-avermelhado. Um filete de sangue escorria pelos seus dentes inferiores, e eu tive um calafrio.

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Cabo de guerra

Dia desses me lembrei sem motivo de uma historinha boba, porém bastante ilustrativa de como o machismo é onipresente e machuca também os homens.

Quando eu contava uns 10 anos, se sucedeu a seguinte situação: no aquecimento para um treino de taekwondo (arte que eu largaria pouco tempo depois), o professor resolveu inovar. A brincadeira era fazer testes de força entre meninos e meninas, que incluíam cabo de guerra e imobilização.

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Que alegria senti

Depois do sombrio “Que medo senti”, pensei: por que não revelar um lado um pouco menos soturno daquele mesmo Thyago de 10 anos?  Falando como quem já se achava adulto o bastante para escrever sobre o passado, resolvi relatar um caso curioso que me acometera 5 anos antes. Ou seja, quando eu somava apenas 5 primaveras de vida. (Nota mental: sorte a minha – e de vocês – eu ter deixado toda essa prepotência lá na infância. Do jeito que a coisa ia, não duvido que eu me proporia a lançar uma autobiografia aos 15).

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