Alforria

Não tarda o dia

Em que vou te extirpar da minha mente

Expulsar-te do meu sentimento

Arrancar-te da minha rotina

Enxotar-te dos meus sonhos

Varrer-te da minha alma

Não tarda. E quando o dia enfim chegar, ouvirão meu grito. Violento, alucinado, ensurdecedor: LIBERDADE!

Riso

Hoje tentei, e tentei com esforço, me lembrar do teu riso. Mas não consegui: o som dele já me foge. Por outro lado, a imagem ainda é nítida: vejo cada traço do teu rosto (poderia desenhá-lo se tivesse talento para tanto).

Hoje o teu riso se foi. É um dia triste.

Para quem te alindas?

“Essa mulher tinha a beleza luxuosa que se orna a si mesma, e que os enfeites, longe de realçar, amesquinham; nunca ela me parecia mais linda do que sob essa simplicidade severa”.

Alencar fala de Lúcia, mas é a ti que vejo. Diz-me: que fazes com tantos adornos em tua fronte nestes tempos? A quem queres enternecer? Entende: não venho por ciúme (o qual, infortúnio, ainda nutro). Antes por conselho.

Bem sabes que és tão bela quanto menos te arranjas. Que homem é esse que te anseia tão coberta de adereços? Que ignora o encanto, tão primeiro, de tua tez lívida?

Não cativa quem não te pode compreender! Farás sofrer a ambos! Ele por não ter espírito excelso o bastante. Tu por caçares em outros olhos a chama que inda arde nos meus.

Gosto de lembrar

Lembra daquela música que te mandei uma vez? “Fast Car”? Você disse: “ques bonita!”. E é. Ela fala de um casal, em fuga, na estrada. O destino? Qualquer lugar. Gosto de lembrar das nossas viagens. Gosto da imagem, que não se apagou, do seu cabelo esvoaçando, dos seus óculos escuros enormes (que você usava a contragosto por ter que tirar os de grau).

Gosto de lembrar da sua mão na minha perna enquanto eu dirigia. E do jeito que eu a puxava de volta quando você a tirava de lá. Das músicas, que você trocava sem pudor, do rádio que era praticamente seu. Das minhas dancinhas ridículas que eu fazia só para ouvir a sua risada. Do seu sorriso quando eu balbuciava qualquer letra de John Mayer. Eu fazia de propósito, você deve saber disso. Sabia que você iria passar os dedos no meu cabelo e fazer alguma piadinha. (Não deixei de odiar esse cara, por sinal).

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Se eu pudesse

Ah, se eu pudesse dizer o quanto te amo sem incitar teu ódio!

Se eu pudesse te beijar sem incitar teu asco
Se eu pudesse velar teu sono sem te inspirar pesadelos
Se eu pudesse te abraçar sem te fazer sentir solitária
Se eu pudesse te fazer carinho sem te parecer dor
Se eu pudesse te acalmar sem ser teu desespero
Se eu pudesse ser teu futuro sem te fazer lembrar o passado
Se eu pudesse dar a vida por ti sem te fazer sentir morta

Ah, se eu pudesse não ser antagonista daquele que já fui um dia!

Abstinência

Lembro-me do riso, da certeza de que nunca seria diferente. “Não sei mais ser de outra”. E assim é. Virei uma extensão de mim mesmo. Uma extensão do eu que era seu. Que ainda é. Muito levará para deixar de ser.

É quebra, baque, rompimento do que pensava ser indissociável. Aprendi a amar somente um coração. Aprendi a beijar apenas uma boca. Aprendi a ouvir, a entender apenas uma voz. Aprendi a sentir apenas um perfume (e o melhor: a falta dele). É como ser de novo criança e engatinhar para se colocar de pé.

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